- ela me parece uma espécie de recompensa. sabe quando o soldado vai pra guerra e ele se despede lá da noiva? daí ele luta todo dia, explode bomba, vê gente morrendo, sangra, quase morre. mas aí à noite, antes de dormir, ele pega a foto da bendita mulher e é assim, tão simples: ele a ama. e só vai sair vivo daquela peça que o destino pregou nele, porque tem pra quem voltar. é assim que eu me sinto, porque isso aqui... não é nada fácil. é um troço bem egoísta, entendeu? só que, às vezes, eu esqueço e dói, de leve, mas logo passa. desculpa, isso é a coisa mais ridícula que eu já confidenciei pra alguém e eu tô me sentindo idiota, mas é que, ultimamente, tem doído tanto... e eu tenho sido tão silenciosa...
terça-feira, 29 de maio de 2012
sexta-feira, 25 de maio de 2012
acho muito altruísmo da minha parte, deixar que você leve consigo todas as minhas risadas e os meus bons sentimentos. acho altruísmo, porque eu nunca penso em mim, cada vez que te vejo me largando, quase surda e completamente muda. logo eu, que sempre sou tão egoísta. logo eu, que sempre estou indo embora sem me despedaçar. o problema é que a culpa é toda minha: se te deixei ser furacão em minhas tardes tristes, é porque foi em você que depositei as minhas certezas mais certas. porém não te ausento de parte da culpa: você ainda me deve um não. o que mais dói é que eu sou uma menina com uma flor e já deveria ter anticorpos para algumas coisas.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
pedaço.
[...]
já que você não merece,
devolva minhas preces,
meu canto, meu amor,
meu tempo, por favor,
e minha alegria que,
naquele dia,
só te emprestei por uns dias
e é tudo que me pertence.
[alice ruiz]
terça-feira, 22 de maio de 2012
- já tem quatro anos?
- tem! tem quatro anos...
- acho que o tempo passou diferente para cada um de nós...
- eu tenho certeza.
ela sorriu desconversando. perguntou sobre a vida fora daquela cidade, sobre as doenças dos países de primeiro mundo, sobre os pedalinhos, quis saber da greve, como ele estava fazendo para dormir e se ainda tinha insônias, perguntou se ainda cantava cazuza durante o banho.
- às vezes. depende do dia e do ânimo.
ele olhou para a rua e começou a contar que os pedalinhos há muito tempo já não eram mais os mesmos, que a greve estava sendo esquisita e que havia descoberto um jeito de dormir melhor: chá de hortelã.
- não gosto de chás, você se lembra disso?
- lembro que não gosta de nada verde ou que um dia tivesse sido.
e olhou novamente para a rua e contou sobre como era viver longe dali.
- você ainda tem os mesmos olhos...
- 'olhos de quem espera um mundo todo...', era isso que você dizia... 'você será para sempre a minha garota dos olhos...'
ambos envergonharam-se e riram juntos.
- quantos anos você tem hoje?
- vinte e dois.
- poxa! eu tô muito velho, olha pra mim!
apontou para o próprio rosto, como que mostrando algo de errado.
ela pensou 'não tá velho, continua o mesmo' e calou-se em um sorriso.
ele já beirava os trinta, disso ela nunca esqueceu: sete anos e alguns meses de diferença.
- você sabe que eu não fiz por mal. você consegue me entender?
- eu teria feito o mesmo que você, não precisa se explicar. você precisava ir! você ainda precisa... eu te entendo. você sempre precisará ir embora, eu sei...
- eu só voltei porque, de alguma forma, eu precisava me retratar com você. precisava te dizer que o problema nunca foi você, ou eu, ou essa cidade, ou o seu problema com a minha insônia, ou o meu problema com a minha insônia... eu só não podia... não podia... não podia te esperar... porque você... porque você, eu não podia... eu não podia...
- você não precisa se retratar comigo. você não precisa me dar motivos agora, depois de tantos anos. você não precisa de nada disso, ok?
- ok.
- o tempo passou muito diferente para nós dois...
sábado, 19 de maio de 2012
porque eu pensei que talvez fosse legal pegar seu telefone, para em outra oportunidade, tomarmos alguma coisa e falarmos mais sobre a vida. porque eu sou meio sem jeito, mas gostei de você. seu sorriso é meio tímido, mas seus olhos me disseram coisas boas. admiro pessoas que, num dia tão frio, saem de suas casas com o mesmo propósito que o seu. gosto de pessoas decididas, leves e com os olhares certos. gostei da forma como você me olhou de tão perto e esboçou um sorriso, quase sem mexer os lábios. gosto de conversar coisas aleatórias com desconhecidos, mesmo você tendo me parecido tão conhecida. no final, foi uma situação meio estranha: uma mistura de desconhecidos que se despedem sem medo, com aquela cena do soldado que vai para a guerra e se despede da noiva. mas é que eu olhei para você e ah, menina... até-logo-a-gente-marca-outro-dia-alguma-coisa-tchau-então. e com a minha falta de jeito costumeira, esqueci de perguntar sobre os números do seu telefone.
domingo, 13 de maio de 2012
não me diga que os tempos eram outros e que a gente vivia feliz. não me diga que sente saudade do que a gente deixou passar em branco, quando tudo que eu queria é nem ter vivido aquelas semanas. não me venha com tanta falta de imaginação e tanto apego ao que era e hoje já não é mais. já venha com os seus sinais decodificados, não sou boa em interpretar estas coisas. não me traga mais um dicionário cheio dos seus verbos que não praticam ação alguma. o problema é que, às vezes, eu vivo todas essas coisas aqui e penso que seria melhor se o aí fosse mais perto e menos concreto. queria que dessas nossas noções de lugar e tempo só restasse um aqui e um agora. conheci um lugar novo e quero te levar, talvez quando o tempo for outro e o sentimento for novo. mesmo que ainda suportemos as mesmas ideias e ainda sejamos as mesmas, a percepção será outra, compreenda. tenho mantido longas conversas com a máquina de lavar, por puro despreparo para a vida caseira, mas de todos os segredos que tenho compartilhado com as paredes, fica apenas o silêncio dos seus movimentos desajeitados e da minha falta de cadência. porque quando falta o tato, a solidão dança a sua valsa.
domingo, 6 de maio de 2012
vi uma placa igual a sua e pensei em colocar um recadinho no pára-brisas para que levassem, que guiassem meus pensamentos para próximo dos seus. aí pensei em ficar ali, parada ao lado do carro esperando para ver quem era o dono, para ver se ele conhecia você, ver se poderia me dar uma carona, porque tava com cara de chuva e eu tava com medo de me molhar, de molhar meus cadernos. pensei tanto que continuei andando para bem longe dali. subi a rua meio desnorteada e me lembrei de alguma promessa que eu havia lhe feito. estou assim: vivendo de futuros. porque o meu presente você já trouxe e ele tem sido o mais pertinente. me manda para o futuro agora, junto com os nossas placas, nossos dilúvios e o que eu não sei explicar, me manda? me manda para a solução que são os seus dias. me manda para algum lugar, longe desse monte de livros e dessas urgências tão atrasadas.
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